Grandioso, o Complexo Speedland resgata o sonho de piloto amador parecer profissional com pompa e circunstância - Reprodução

Grandioso, o Complexo Speedland resgata o sonho de piloto amador parecer profissional com pompa e circunstância – Reprodução

 

Quem tem mais de 50 anos e é apaixonado por automobilismo entenderá o tom de nostalgia misturado com esperança deste artigo e, principalmente, aquele que, como diz o ditado popular, o sangue não corre nas veias, tira racha. Quem sonhou em se aventurar no trépido e caríssimo mundo do esporte a motor, mas tinha como contencioso, um baixíssimo ou quase nulo orçamento teve na década de 1990 a oportunidade de cumprir o ritual de vestir um macacão, afivelar um capacete e acelerar entre pneus. Era o kart indoor que nasceu e prosperou durante anos até quase desaparecer.

 

Da numerosa família, formada por aproximadamente 130 indivíduos, as pistas, e um sem-número de agregados, os funcionários – a capital paulista chegou a ter mais pistas indoor do que a soma de todas pelo mundo afora – caiu em declínio vertical. Hoje restam tão poucas pistas indoor que dá para contar nos dedos de uma mão. Mas erra quem imaginou que quem tinha como destino o bairro do Jaguaré, zona oeste da capital, onde surgiu a primeira pista de kart indoor, morreu de vez.

 

Pista de corrida da Speedland é finalizada com neon azul, um capricho jamais visto em qualquer outro kart indoor no Brasil - Reprodução

Pista de corrida da Speedland é finalizada com neon azul, um capricho jamais visto em qualquer outro kart indoor no Brasil – Reprodução

 

Amanhã (1º de outubro) será aberto ao público um empreendimento de vulto, o Speedland, um complexo com 26 mil m², que reúne num mesmo ambiente a maior pista de kart para amadores no Brasil e dezenas de atrações para a família. Localizado no Tatuapé, o complexo apresenta pista com 1.200 metros – mesma metragem da Kart In Racing Club, que encerrou atividades em 2012 por causa de uma reintegração de posse imposta ordem judicial – e une o melhor dos dois mundos nesse esporte: pode ser indoor (fechada) e outdoor ao mesmo tempo. Para dar vida ao novo templo do kart indoor foi investido um total de R$ 20 milhões a R$ 25 milhões. O estacionamento tem cem vagas com serviço de manobrista.

 

A pista permite diversas configurações, tendo uma delas uma grande reta com mais de 300 metros, o que é sinônimo de aceleração máxima, goela seca e adrenalina a sair pelos poros. Vale um parêntese. Em 1995, quando eu ainda era repórter especial no agora só digital Diário do Comércio, dei início a uma série de matérias abordando o tema Kart Indoor, observando sempre pelo ângulo negócio e entretenimento.

 

Kart In Racing Club era gigante, mas encerrou atividades em 2012 por ordem judicial - Reprodução

Kart In Racing Club era gigante, mas encerrou atividades em 2012 por ordem judicial – Reprodução

Como empreendimento, à época, a atividade se multiplicava mais que coelho e enxerguei no novo segmento um assunto de interesse do jornal, o comércio de entretenimento. Juntou a fome com a vontade de comer. Ou seja, eu percorria as pistas sempre de outro repórter, sendo que eu apurava os dados e o outro o opinava sobre entretenimento. Para elaborar material noticioso conversava com os donos dos empreendimentos, cujos investimentos variavam de acordo com o que queriam de retorno, de modo a oferecer ao leitor algum tipo de vantagem, como um desconto para o cliente que apresentasse a matéria do jornal, o que não consistia em uma publimatéria, embora divulgasse a pista, dicas de pilotagem, dados econômicos, entre outros.

 

Acredite, às quintas-feiras, quando o jornal publicava as matérias não sobrava um exemplar, que embora a distribuição fosse gratuita aos comerciantes também podia ser adquirido em banca ou na sede do jornal. Não havia um bairro na capital que não tivesse pelo menos uma pista. Foi um boom extraordinário e para atrair a clientela os empreendedores se esmeravam nas instalações. Algumas pistas, como a Planet Kart, no Jaguaré, tinham até pista de dança no meio do circuito, enquanto a Dakar, em Interlagos, tinha pista de terra, karts gaiolas e reproduzia nas paredes imagens do mais famoso Rali do mundo, o Paris-Dakar.

 

A Pit Stop sobreviveu ao enfarto fulminante, que extinguiu a maioria dos indoors graças a uma administração correta

A Pit Stop sobreviveu ao enfarto fulminante, que extinguiu a maioria dos indoor graças a uma administração correta

No braço – Também é inegável que em todas, as batidas do coração eram tão rápidas os giros dos rotações dos motores estacionários Honda ou Briggs & Stratton de 6,5 hp, que equipavam chassis Mini, ZF ou Moro, entre tantos. O barato para o piloto era manter o pé direito do acelerador atolado, esquecer o do freio e transformar curva em reta. Estar no topo da tabela de tempos e vencer uma prova eram, comparativamente, o mesmo que conquistar um título de campeão mundial da Fórmula 1. Sim, amigo leitor, era o sonho de ser piloto a virar realidade, guardado a devidas proporções técnica e de orçamento.

 

Da luz verde acesa à bandeirada final eram muitas pegadas no kart pelo pescoço para administrar derrapagens, tentar ser rápido como um puro sangue entre pangarés, em geral iniciantes, e alguns vigaristas (aqueles que não se conformam por serem lentos com equipamentos iguais e atrapalham a corrida dos demais competidores). Quem corria tinha assunto pelo resto da semana, uma válvula de escape entre a correria do dia a dia resumida em pistas estreitas e curvinhas fechadas. O indoor, como ficou conhecido, portanto, foi um caminho de ligação para novas amizades.

 

As filas de espera para correr nas principais pistas da capital chegavam a absurdos seis meses. Por isso, a equação oferta versus demanda foi resolvida pelos preços cobrados por aqueles trinta minutos de prazer e em alguns casos naturalmente subiam e deixavam de ser convidativos, mas longe de serem proibitivos para os bolsos de pilotos amadores. As pistas localizadas no Jaguaré eram as mais procuradas e também mais caras, mas cada uma oferecia um diferencial seja pela cordialidade do atendimento, manutenção dos karts, nível de dificuldade do traçado e para manterem a clientela ofereciam programas de fidelização ao cliente. Um espetáculo em termos de marketing e consequente lucro.

 

Praticamente todos os grandes galpões abandonados da cidade se transformaram em pista de kart indoor. Na zona Leste, então, o que era fábrica desativada recuperava vida pela atividade que prosperava a braçadas. A West Kart, por exemplo, ocupava um prédio de quatro andares, sendo que a pista principal estava no último andar, tinha um traçado desafiador, mas fora inaugurada quando o segmento demonstrava sinais de anemia, e também o aumento do preço do aluguel de galpões, aliado a inevitáveis acidentes amplamente divulgados pela mídia, principalmente a televisiva, aplicou injeção letal em pacientes moribundos já no final da década. Os investimentos caíram. Já não compensava aplicar dinheiro na renovação da frota e troca dos fracos motores de 6,5 hp por motores mais fortes – precisaria faturar R$ 1,50 por minuto na atividade pista e outros muitos reais fora dela no bar, por exemplo – decidiu abaixar as portas. Muitos empreendedores paraquedistas perderam dinheiro. É fato.

 

Quem soube bem administrar o negócio ainda no ápice e fez nome saiu do galpão e foi para uma pista aberta, como é o caso da Pit Stop (assista o vídeo acima – Crédito: Cristiano de Souza), que começou atividade em um galpão colado a ponte da Vila Maria e hoje se mantém viva, em sede própria na Av. Professor Luiz Ignácio Anhaia Mello, 3500 – Vila Prudente. Próxima da Pit Stop, mas sem ser necessariamente concorrente direta nascerá a Speedland, um indoor com Padrão Fifa (ou seria FIA?) e além de trazer de volta vida ao kart indoor estabelecerá uma nova referência em termos de negócio.

 

A Interkart passou por várias gestões e nem de longe lembra o que fora no passado - Reprodução

A Interkart passou por várias gestões e nem de longe lembra o que foi no passado – Reprodução

Também remanescente, a Interkart, localizada no estacionamento do Shopping Center Interlagos, não é nem de longe o que foi quando inaugurada. Por questão contratual, a pista foi reduzida para ampliar vagas de estacionamento, perdeu o fantástico anel externo e tem público bem reduzido. Dia 29 estive nas instalações. Mudou de dono e vi o que não gostaria de ver, tampouco de noticiar. A pista não está exatamente descuidada. Os karts, diferentemente da gestão anterior, estão em ótimo estado de manutenção, mas aconteceu uma repetição do ocorrido em vários kartódromos indoor brasileiros. Rolava uma festa comemoração de aniversário nas instalações da Interkart, mas apenas dois karts percorriam a pista. Eram duas moças ao volante dos mini bólidos e uma delas, possivelmente sem balaclava, teve o cabelo enroscado na correia do motor. Imaginou o estrago? A jovem foi atendida na pista. Não tive coragem e nem estômago para saber o desfecho do caso. Entretanto, espero não ter de publicar aqui notícias ruins seja por despreparo do pessoal de pista, que não observa e nem alerta sobre uso da balaclava ou afivelamento de capacete, aliada a imprudência do piloto, que ao pagar o aluguel do equipamento assina termo de responsabilidade, isentando assim o kartódromo. Fica o registro.

 

 

Ineditismo – Inspirado no kartódromo Carlos Sainz Center Kart & Business, de Madri (assista o vídeo acima), o Speedland exibe outros recursos interessantes, como o cordão de LED que contorna todo o traçado interno e torna ainda mais vibrante o circuito, criando efeito semelhante às corridas noturnas da F-1 e aos melhores jogos de simuladores de corrida, um prato cheio para os aficionados a videogames, mas, diferentemente, tudo acontece em primeira pessoa. Ou seja, de volante em punho, o “piloto” poderá mostrar todo seu potencial sem se preocupar em detonar o carro, no caso, o equipamento eletrônico.

 

Um túnel de 80 metros é outro recurso exclusivo, que remete ao GP de Mônaco (dica do tricampeão mundial de Fórmula 1 Nelson Piquet: pisque rapidamente os olhos antes e depois de sair do túnel para manter a visão. Captou?). “Fizemos também curvas inspiradas nos circuitos de Interlagos, Monza e Spa-Francorchamps”, diz Tuka Rocha, que é um dos sócios do empreendimento e foi o responsável pelo desenho do traçado. Tuka é considerado um dos maiores campeões do kartismo brasileiro e hoje piloto da Stock Car – ele venceu a corrida de Ribeirão Preto neste ano. Se você não sabe bem quem é o Tuka, ele foi aquele cujo carro pegou fogo no extinto Autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, durante uma etapa da Stock Car (veja o vídeo abaixo – Crédito:  MegaHyan3).

 

 

O kartódromo Speedland coloca a disposição 80 karts para locação, sendo 65 com motor de 13 hp e 15 de 6,5 hp, para a criançada. ”O Speedland vai proporcionar uma experiência mais próxima possível da de um piloto profissional de kart”, garante o empresário Thiago Viana, que destaca ainda o painel de cronometragem. Jogada de mestre. Até agora, as principais pistas abertas oferecem karts com motores de 13 hp os quais atingem até 90 Km/h, imagine a sensação da mesma cavalaria ou com dois a mais no indoor, denominação também usada pelas pistas abertas para karts que usam motores estacionários quatro tempos. Tá preparado?

 

“O Speedland é um dos indoor mais modernos do mundo, com capacidade para marcar o tempo e a posição de até 35 competidores por bateria”, explica. “Esse é outro diferencial, as pistas do país têm painéis para apenas dez tempos”, reforça Viana. Quarenta e oito câmeras estão espalhadas pelo circuito para mostrar tudo que acontece na pista para quem está do lado de fora. Cada bateria poderá ter até 25 carros. Esse é outro ponto a favor do novo complexo. Como o traçado é extenso e normalmente o piloto vai acompanhado, assistir o que acontece em pontos cegos da pista é, sem dúvida, uma atração à parte. Confira abaixo a apresentação oficial.

Um Fórmula 1 de verdade e simuladores profissionais. Fora da pista, o Speedland é rodeado de atrações relacionadas ao mundo do automobilismo. Destaque para a pista de autorama, de 47 metros, com capacidade para oito carros de alta potência, réplicas perfeitas dos carros de corrida. A ideia dos sócios é trazer para o local provas do campeonato nacional. Que bacana! Quem é piloto amador e apaixonado pelo esporte a motor se associou a algum grupo, mas ficou órfão das antigas pistas indoor. Os campeonatos amadores não acabaram, só trocaram de endereço, no caso, pistas abertas. Devolver aos pilotos o espaço fechado é, portanto, traz de volta o zunido abafado dos motores associado ao grunhido agudo dos pneus escorregando na pista.

 

Simuladores iguais aos usados por pilotos profissionais - Divulgação

Simuladores iguais aos usados por pilotos profissionais – Divulgação

O Speedland terá também um espaço nobre para simuladores, iguais aos que os pilotos usam para treinar e simular testes nas diversas etapas da F1. Incrivelmente realista, os simuladores permitem ao visitante sentir a emoção de pilotar um bólido de competição. Serão promovidos campeonatos de corridas virtuais, com uma grande final. Eis a possibilidade de desenvolvimento do piloto amador para quem sabe se tornar um profissional do esporte. A recém-lançada Fórmula Inter ou a consolidada Fórmula Vee podem ser o próximo passo a ser dado, isto é, se o piloto amador dispuser de algum orçamento, que não precisa ser grande quanto se imagina e, comparativamente, pode ser menor que o de uma temporada completa de kart dois tempos.

 

Tudo no Speedland remete ao automobilismo de competição - Divulgação

Tudo no Speedland remete ao automobilismo de competição – Divulgação

Uma parceria com a Red Bull garantiu a exposição de um carro original de Fórmula 1 no local. Não se trata de uma réplica, muito comum em diversos pontos de São Paulo, mas do carro usado por David Coulthard, na temporada de 2008. Além disso, macacões usados por pilotos brasileiros da F1 estarão expostos, entre eles o de Rubens Barrichello, que detém o recorde de 319 participações em grandes prêmios de F1. Numa parceria com o Instituto Ayrton Senna, vários objetos do piloto Ayrton Senna vão estar em exposição no Speedland.

 

Bom negócio começa com boas parcerias assim como a boa venda começa com a compra certa, que redunda em preço justo e satisfação do cliente. Os sócios da Speedland, que também contam com a parceria com a seguradora Porto Seguro começaram com alicerce. Através desses acordos fica garantida uma parte do investimento, que foi mais na instalação da infraestrutura já que o terreno pertence a Viana.

 

Macacões de Rubens Barrichello, recordista mundial com 319 largadas em grandes prêmios de F1 - Divulgação

Macacões de Rubens Barrichello, recordista mundial com 319 largadas em grandes prêmios de F1 – Divulgação

“A cidade estava carente de um centro de lazer desse porte, desde que o Playcenter fechou”, diz o empresário Thiago Viana. “Vamos trabalhar para que o Speedland se torne uma atração e figure no guia turístico de São Paulo”, emenda. O complexo ainda conta com um espaço para exposições e diversos tipos de eventos. Segundo a assessoria de Imprensa da Speedland, a empresa já tem cerca de quatro mil reservas para eventos.

 

“O Speedland também foi pensado para proporcionar às empresas um local de reuniões e convenções. Por isso, investimos muito em cada espaço”, acrescenta o empresário. De fato, chama a atenção os detalhes de acabamento das áreas comuns (lanchonete, restaurante, banheiros, salas de jogos e loja). “É algo que não se vê nos kartódromos brasileiros”. Pelo foco do complexo, não será de estranhar se ele for utilizado para lançamentos de automóveis, motos, entre outros, levando-se em consideração a localização, facilidade de acesso e redução de custos, ponto importante para um país que está mergulhado na recessão.

 

Espaço Senninha conta com brinquedos eletrônicos e uma minipista - Divulgação

Espaço Senninha conta com brinquedos eletrônicos e uma minipista – Divulgação

Família – As crianças e o público feminino não foram esquecidos. A garotada vai se divertir no espaço Senninha, com muitos brinquedos eletrônicos e uma minipista. Também haverá máquinas de fliperama, todas com temas automobilísticos. Já para o público feminino, que quer relaxar enquanto o marido ou namorado está na pista de corrida, foi destinado um espaço especial, com cadeiras de massagens, manicures e monitores de tevê. O restaurante/bar vai ser outro ponto de atração, além de cozinha de alto padrão, pretende ser um local de encontro, com transmissão de jogos de futebol, corridas e outros esportes.

 

O local ainda abrigará um espaço corporativo, com capacidade para 400 pessoas. Lá, as empresas poderão promover encontros de funcionários, workshops e eventos de confraternização. Para esse tipo de evento, o Speedland oferecerá buffet especial.

 

Lembrança do tricampeão mundial de F-1 Ayrton Senna instiga jovens esportistas - Divulgação

Lembrança do tricampeão mundial de F-1 Ayrton Senna instiga jovens esportistas – Divulgação

Durante o ano, o complexo vai oferecer cursos de pilotagem, que serão organizados pelo piloto Tuka Rocha, um dos sócios no empreendimento. “Com certeza, não existe nada no país, relacionado a esse tipo de lazer, que tenha estrutura parecida”, diz Thiago Viana.

 

Serviço

 

Horários de funcionamento: segunda à sexta-feira das 17h às 24h; sábados, domingos e feriados das 10h às 24h.

Bateria (dias de semana): R$ 100,00

Bateria (finais de semanas e feriados): R$ 120,00

Endereço: Rua Ulisses Cruz, 275 – São Paulo