As cinzas do piloto Luís Pereira Bueno, o “Peroba”, foram jogadas na pista do Autódromo de Interlagos no último sábado em cerimônia, na qual apenas seus amigos mais estiveram presentes. Foi algo simples, mas ao mesmo tempo emocionante, digna para alguém, como Bueno, tanto fez pelo automobilismo brasileiro, demonstrando extraordinária técnica de pilotagem.

Talvez as gerações mais novas não saibam, mas era Luís Pereira Bueno quem testava os MGs TC (Turismo Carreteira) de Cláudio Daniel Rodrigues, que, andavam junto com Ferraris e Maseratis da época. O MG era construído com carroceria de alumínio, o motor usava compressor e, por isso, exigia muitos testes e experiências com pneus de várias medidas, para verificar qual o que melhor se adaptava ao tempo seco e ao molhado também. Tudo isso nos primórdios dos anos 50 no Brasil.

Aliás, foi Rodrigues quem descobriu o talento nato de Luís Pereira Bueno e o pegou para amaciar estes MGs no Autódromo de Interlagos, isto quando o Luis tinha 13/14 anos, lhe ensinando desde o ABC até o Z. “Rodrigues combinava com Bueno que determinado dia o amaciamento era até 3500 rpm e então ele ia pilotando o mais rápido que podia, sem passar desse regime. Com o aprendizado desta técnica, sempre foi além de muito rápido, um piloto que tratava muito bem de seus carros, no sentido de pilotagem”, observa o piloto Francisco “Chico” Lameirão.

“Ainda sobre Claudio Daniel Rodrigues, é obrigatório que se mencione que foi ele que lançou o kart no Brasil, sendo o primeiro construtor e incentivador dos pequenos bólidos, que tão bons nomes produziram no cenário nacional e internacional tais como Maneco Combacau, Emerson Fittipaldi, José Carlos Pace e Wilson Fittipaldi, para citar alguns nomes, e sem comentar de Ayrton Senna, evidentemente”, afirma Lameirão.

Mestre – “Em corridas longas, Bueno sabia dosar o freio como ninguém. Na neblina era um mestre, a bem da verdade junto com Cyro Cayres e Bird Clemente. Se o carro durante a corrida mudava de comportamento, ou devido a uma barra estabilizadora quebrada ou por causa de uma leve batida, mudava imediatamente o trajeto que estava usando até aquele momento, mas continuava a virar no mesmo tempo em que anteriormente estava virando. Histórica e mundialmente falando, somente o grande Jim Clark conseguia tal feito”, observa Lameirão.

Em sua primeira corrida de Formula 1 foi o 6º colocado, correndo com um Surtees. Nesta corrida, houve um fato surpreendente: os campeonatos mundiais naquele tempo começavam na África do Sul; Após a corrida, os carros eram desmontados e mandados para o Brasil em Interlagos. Quando os treinos começaram, após duas voltas, Luis parou no boxe e comentou com John Surtees que o carro estava “inguiável”. Surtees lhe disse que talvez ele não tivesse o “dom” necessário para pilotar um Formula 1.

“Após mais duas voltas, Luisinho foi categórico para com Surtees, dizendo que havia alguma coisa muito errada no carro e lhe pedindo para que José Carlos Pace, o “Moco”, experimentasse dar algumas voltas, pois como era o piloto oficial da Surtees, daria uma opinião mais abalizada do que estaria ocorrendo. Pace então saiu com o carro de Luis e nem completou a volta, retornando aos boxes imediatamente para dizer ao John Surtees que o carro estava “inguiável”, de fato”, diz o piloto.

Constatou-se, então, que na montagem apressada os mecânicos tinham invertido um dos triângulos dianteiros e com isso o carro tinha uma medida diferente para cada lado do entre-eixos. De imediato, Surtees pediu mil desculpas.

Luis Pereira Bueno foi protagonista de corridas memoráveis, como os 500 Km de Interlagos pelo anel externo, onde com um Porsche 908, e mantiveram um duelo impressionante com o suíço Herbert Müller, este com um Porsche 908/3; ou na Áustria, com o mesmo Porsche 908, quando largou no meio das Ferraris de fábrica, junto com pilotos do nível de Roonie Peterson, Jack Icks, José Carlos Pace, Arturo Merzário e Tim Shenkins.