Jorge Meditsch – Crédito: Jorge Meditsch

Quem vê hoje a velocidade, qualidade de imagens e som das coberturas das competições internacionais, não só de automobilismo, mas também de outros esportes não tem ideia das dificuldades enfrentadas há 50 ou 40 anos para trazer para os brasileiros a participação de seus ídolos nos principais certames do mundo.

Não havia internet, não havia celular, não havia computador. Muitas vezes, a disputava-se a única linha telefônica disponível, ou passava-se 3 meses fora do Brasil porque o custo da passagem aérea era exorbitante. Muitos jornalistas tinham que se virar com orçamento de menos de 50 dólares por dia para permanecer na Europa ou nos Estados Unidos por meses para essas coberturas, algo impensável nos dias atuais.

Em muitos lugares não havia sala de imprensa e as entrevistas com os pilotos eram feitas no fundo dos boxes em meio aos mecânicos, ferramentas e peças. Em 1968, quando Emerson foi para a Europa, seu amigo Chico Rosa corria para um telefone público para transmitir as informações para o Jornal da Tarde, por ligação a cobrar.

Mesmo assim, sempre foi sensacional e apaixonante. Um desses jornalistas pioneiros foi Jorge Meditsch, repórter e repórter-fotográfico, o primeiro jornalista brasileiro presente nas corridas da Fórmula Indy, inclusive na vitória de Emerson Fittipaldi nas 500 Milhas de Indianápolis, em 1989. Antes dele, apenas o Grupo Bandeirantes, que transmitia as corridas para o Brasil.

No jornalismo, Meditsch foi um exemplo de destemor para matar uma forte vontade. Pelo desejo de sentir as emoções da Indy, em 1986 trocou uma viagem que havia planejado por uma temporada ao vivo nos Estados Unidos. Levado pela forte vontade, juntou algum dinheiro, vendeu a moto e embarcou.

Crédito: Jorge Meditsch

Para a sua aventura, conseguiu estabelecer um acordo com a Quatro Rodas, por 400 dólares mensais por matéria e fotografias. Um orçamento apertado, mas que conseguia administrar porque descobriu que havia muitas opções de hospedagem e alimentação de baixo custo, pequenos motéis, independentes de redes, limpos, confortáveis e acessíveis.

A maioria das corridas acontecia no meio oeste americano e, por isso, ficou baseado em Indianápolis, viajando de carro alugado. Para ele, foi uma boa maneira de descobrir o que chama de Estados Unidos reais – nada a ver com a cosmopolita Nova York ou a latino-americana Flórida.

Emerson Fittipaldi, espécie de trator que abre caminhos e depois cria as receitas para outros pilotos, já estava lá, como Raul Boesel e Roberto Moreno e depois outros que seguiram a experiência transmitida por ele, o primeiro a competir, vencer e se tornar ídolo nos Estados Unidos, até chegar Hélio Castro Neves, o mais recente vencedor da Indy 500 em maio último e o único tetracampeão da corrida.

Para poder continuar acompanhando a Fórmula Indy in loco, em 1989, Meditsch soube que a Editora Abril havia criado a Grid, nova revista de automobilismo e conseguiu acertar um contrato para cobrir a temporada. Foi o ano em que Emerson ganhou a Indy 500 e, também, o campeonato e se transformou em herói norte-americano. Lembra que a 500 Milhas sempre foi a corrida mais veloz do mundo disputada no templo norte-americano das competições, Indianápolis, no mês de maio, que recebe grande multidão de fãs e transforma a corrida em festa nacional.

A revista Grid deixou de ser publicada, mas o êxito de Emerson mereceu uma edição especial em formato de poster.

Em 1990, voltou aos Estados Unidos pela Agência Estado e a Rádio Eldorado. As matérias da agência eram publicadas por 17 jornais brasileiros. Cobriu as corridas até o final de 1993, mas permaneceu nos Estados Unidos até o ano seguinte. Nesse último período, baseado em Miami, manteve uma coluna, fez outros trabalhos para a Agência Estado e, também, dedicou-se à publicação de uma página semanal em português no jornal Miami Herald, com notícias do Brasil, porque a população brasileira é muito grande na Flórida.

Em Indianápolis, pista em que ocorrem muitos acidentes, há uma campainha de alerta na sala de Imprensa que é acionada para que os jornalistas possam acompanhar nos televisores o trabalho dos socorristas e saber das consequências para os pilotos envolvidos.

Meditsch ficou muito preocupado com o acidente de Nelson Piquet. Ele estava indo para o box de Piquet quando aconteceu e, usando o celular, conseguiu transmitir a notícia para Rádio Eldorado, direto da pista, no mesmo momento em que o piloto brasileiro estava sendo colocado na ambulância.

Quando chegou à sala de Imprensa, havia uma mensagem do Jornal da Tarde alertando-o que mandasse uma bela matéria porque seria capa do jornal no dia seguinte.

Meditsch recorda que acompanhou de perto a drama do piloto brasileiro e que fez uma série de matérias exclusivas ao longo do período de sua recuperação.

Em uma delas, por conhecer o médico Terry Trammell, que operou Piquet, conseguiu mostrar em detalhes os danos sofridos no acidente e os caminhos escolhidos pelo médico para a recuperação do pé. Quando essa matéria chegou no Brasil, o jornal consultou um ortopedista que disse que, se os danos haviam sido aqueles, o pé teria que ser amputado.

Após mais de dois meses de cirurgias e tratamento, o médico salvou o pé do Piquet, conforme Meditsch havia antecipado e explicado na sua versão.

Ele comenta que foi difícil conseguir acesso a Piquet, durante a sua internação. Sugeriram a ele que tentasse subornar alguém para poder entrar. Embora conhecesse uma enfermeira que trabalhava no hospital e, nos finais de semana, fotografava na pista, por respeito, não aceitou a sugestão de envolvê-la.

Nessa fase, a fonte de informações passou a ser o Lua – Carlos Mauro – empresário Piquet. Todos os dias, no final da tarde, quando voltava para o hotel, ele e o José Meirelles Passos (correspondente do Globo em Washington, que costumava cobrir as corridas), conversavam com o Lua que passava o relatório do piloto, do que havia acontecido no hospital, o que permitiu a ele acompanhar o restabelecimento de Piquet.

Meditsch considera que a iniciativa de ter ido aos Estados Unidos foi válida, pela experiência que adquiriu às custas das dificuldades que enfrentou, sem se abater diante dos obstáculos.

As maiores dificuldades foram o credenciamento para entrar nas pistas e o reconhecimento como profissional da Imprensa, porque a CART, organizadora do campeonato, não liberava as credenciais permanentes para os novos jornalistas. A regra norte-americana é a de o jornalista precisa ter um número mínimo de corridas em cada temporada. Por isso, é necessário pedir o credenciamento diretamente aos organizadores locais e, no seu caso, foi ainda mais difícil porque, como fotógrafo, precisava ter acesso à pista principalmente às salas de imprensa, normalmente pequenas e com lugares limitados.

Crédito: Jorge Meditsch

Após o sofrimento inicial, Meditsch acabou integrado ao grupo de aproximadamente 30 jornalistas e alguns se tornaram amigos, como Gordon Kirby canadense e correspondente de revistas de vários países. Esse jornalista escreveu o livro The Art of Motor Racing, com Emerson Fittipaldi, que Meditisch traduziu para o idioma português e acrescentou um capítulo em que Emerson fala da Indy 500 e do campeonato de 1989. Publicado no Brasil, Rubinho diz que foi seu livro de cabeceira.

Gaúcho empreendedor, Jorge Meditsch veio para São Paulo em 1982 e trabalhou inicialmente como fotógrafo freelancer, atendendo à Quatro Rodas e outras revistas da Editora Abril.

Não foi fácil, mas avalia que valeu a pena ter satisfeito o desejo de sua alma e diz que sente parte do prazer dos pilotos que, como ele, se emocionaram ao entrar nas pistas das várias cidades norte-americanas.

Ouça essa e outras histórias no podcast Muito Além de Rodas e Motores.