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Quase metade dos carros mais vendidos no Brasil e no mundo hoje são turbos. Esse sucesso demorou muito para ser conquistado e o equipamento precisou vencer diversos obstáculos (e estigmas) criados muito mais pelo desconhecimento e pelo famoso negativo boca-a-boca que, muitas vezes, se baseia em boatos ou fatos isolados, mas pode arranhar e até acabar com a boa imagem de um produto.

Há 20 ou 30 anos, o turbo, pelo melhor desempenho, era muito usado em carros tunados ou mexidos e, por isso, ganhou a imagem de baixa confiabilidade e durabilidade. Parte dos consumidores achava que o motor turbo era coisa de carro de boy e literalmente torciam o nariz sem realmente conhecer seus benefícios e porque poucas fabricantes adotaram o turbo como componente de série de seus veículos.

Nos primeiros anos da indústria, eram comuns ações que criavam boatos no mercado brasileiro. Lembro que, logo após o lançamento do Ford Corcel, precisamos lutar para neutralizar os boatos provocados por empresas concorrentes que queriam desmotivar os consumidores a comprarem o Corcel, na época, o automóvel brasileiro de tamanho médio com o maior conteúdo de tecnologia para a época. Os comentários no mercado sugeriam que havia contrato da Ford com a Renault que limitava a produção do carro em tempo e em volume. Naturalmente, os boatos contribuíram para intimidar uma parcela de consumidores e comprometer o nível de confiança do mercado.

Como responsável pela área de comunicação da Ford, tive a ideia de produzir editoriais com a tônica de que o Corcel era absolutamente confiável e que representava o principal produto da Ford para o mercado brasileiro e para o futuro da empresa no País. Contei com a ajuda de amigos e, pelo correto teor jornalístico, com a produção de artigos publicados em jornais de várias capitais, entre os quais, Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro; Correio do Povo, na época o principal do Rio Grande do Sul, assim como em jornais de Brasília, São Paulo, Salvador, Fortaleza, Recife e em outras capitais do país.

Foi a primeira vez que um serviço desse nível foi realizado por uma empresa automotiva.

Um desses artigos, publicado no caderno de automóveis da Gazeta Esportiva, transformou-se em peça promocional exposta pela Ford na rede de concessionários.

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Com o título Corcel, o carro do profeta (mostrava que as previsões catastróficas sobre o fim do automóvel não se concretizavam) e informava que, ao final, o próprio profeta decidiu comprar um Corcel.

Outro boato inventado era que o Corcel, por ter tração dianteira não conseguia subir uma ladeira. Para isso, os gênios bolaram utilizar um Corcel em dias de chuva em ruas de paralelepípedos em aclive, com grande movimentação de pessoas. O motorista acelerava forte e, com o piso molhado, as rodas dianteiras de tração patinavam e o carro não conseguia subir a ladeira. Coisa de filme!

Mais uma dessas mirabolantes histórias era a exposição de automóveis Corcel parados com o capuz do motor aberto nas áreas de estacionamento existentes na serra da Via Anchieta, na subida em direção a São Paulo simulando um problema de superaquecimento do sistema de arrefecimento e, com isso, provocar a impressão de que o carro superaquecia facilmente.

O Corcel foi o primeiro modelo com tração dianteira, sistema de arrefecimento com circuito selado (que elimina a inspeção periódica do nível de água no radiador) e outras inovações que preocuparam as empresas concorrentes.

As ações continuaram criadas pela incomodada concorrência, mas por suas modernas características para a época, o Corcel tornou-se uma família de veículos com vários modelos e foi símbolo promocional do lançamento do programa Proálcool desenvolvido pelo governo brasileiro para a adoção do álcool como combustível alternativo à gasolina para enfrentar a crise do petróleo nos anos 70.

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A Ford centralizou no Corcel o apoio ao Proálcool, com a realização de reides promocionais em diversos estados brasileiros, fez a primeira viagem de carros a álcool entre São Paulo e Brasília e até viagem internacional, entre São Bernardo do Campo e Assunção, no Paraguai.

Os esforços desenvolvidos pela Ford, o trabalho conjunto e o próprio tempo ajudaram a neutralizar os boatos que tinham a intenção de comprometer a imagem do Corcel. E esse carro de sucesso motivou a criação do primeiro recall no Brasil, venceu todas as ondas criadas contra ele e até hoje manteve-se como o maior êxito de vendas na história da Ford no Brasil.

De julho de 1968, quando foi lançado, a novembro de 1977, a família Corcel atingiu vendas superiores a 2,5 milhões de unidades com seus modelos sedã de 4 portas, cupê de duas portas, perua Belina e pick-ups Pampa e Courier. E não precisou de nenhuma patranha para vencer a guerra que sofreu com os boatos da concorrência.

Ouça esta e outras histórias no podcast Muito Além de Rodas e Motores.