O GP da Bélgica não foi um corrida, foi um desfile desrespeitoso ao público – Foto: Internet

Me senti frustrado com a decisão da FIA (Federação Internacional do Automóvel) em transformar a corrida do Grande Prêmio da Bélgica, no último domingo, em um desfile, em SPA Francochamps, de monopostos das equipes concorrentes seguindo a ordem dos pilotos pelos tempos registrados na classificação, realizada no sábado precedente.

Faltou competência e respeito ao público.

Não foi em nome da segurança que os dirigentes da FIA tomaram essa equivocada decisão, pois no sábado, em uma situação pior, permitiram o início do Q3, última fase da classificação, e por sorte, nada de mais grave aconteceu com o piloto Lando Norris, da McLaren, na curva Eau Rouge.

Talvez para se protegerem das críticas sobre a irresponsabilidade de expor os pilotos a acidentes de sérias consequências.

Para mim, acabou sendo uma brincadeira sem graça, proporcionada por experientes profissionais que tomaram a decisão de promover um desfile dos carros por uma pista encharcada ao longo de quatro voltas e, assim, cumprirem seus compromissos comerciais e fingiram acreditar terem proporcionado satisfação ao público de muitos países do mundo e dos belgas e europeus que se deslocaram para assistir a um espetáculo de sonhos.

Nem devem ter pensado na frustração desse programa domingueiro, que custou elevadas quantias para os expectadores. O valor que pagaram lhes será restituído ou quem adquiriu ingresso receberá uma credencial para assistir à corrida do próximo ano?

Entendo a dificuldade enfrentada pelos dirigentes da FIA, mas uma entidade da sua importância, para a economia, diversão, entretenimento, conforto, segurança e respeito ao público não pode tomar decisões improvisadas.

Ao contrário, deve ter comportamento exemplar, em relação à segurança de pilotos e do público, assim como conforto, organização e respeito aos que pagam para assistir a uma corrida.

Os organizadores dispõem de tecnologia que fornece, com grande precisão, informações sobre horário, tempo e intensidade da chuva. O que teria ocorrido à FIA que não alterou a ordem das provas, antecipando a corrida de Fórmula 1 e garantindo a sua realização no lugar da Fórmula 3?

Não teria sido mais fácil, menos complicado e mais prazeroso para todos se tivessem feito essa previsão?

Ao longo de minha carreira profissional, assisti a episódios absurdos e entendi que os inexperientes dirigentes se dedicavam a organizar corridas por amor ao esporte e não em benefício próprio, mas apenas para que a atividade crescesse em importância porque poucos eram os que assumiam contribuir com horas de descanso e lazer.

Alguns eram tão dedicados que até esqueciam da família, delegando essas responsabilidades para suas esposas pelo amor e pelo desenvolvimento esportivo.

Tenho dois episódios que bem revelam o despreparo dos dirigentes para enfrentar dificuldades inesperadas ou inusitadas que as competições podem apresentar.

Nos meus tempos de repórter, num fim de semana fui fazer a cobertura de uma corrida de kart em Mogi das Cruzes e, embora a Federação Paulista de Automobilismo tivesse um regulamento a ser obedecido, nenhum dirigente se preocupava em cumpri-lo. Mas, por uma decisão repentina, naquela prova a direção técnica do kart decidiu aplicar esse regulamento, sem aviso prévio.

Acidente com Lando Norris, da McLaren, foi o prenúncio do que seria o GP – Foto: Internet

O item do regulamento era o peso mínimo do kart. E por estar abaixo do peso estabelecido, o piloto vencedor foi desclassificado. Presente ao evento, argumentei, em defesa do piloto, que a federação deveria informar aos participantes que passaria a cumprir as regras do regulamento.

Como não adiantaram as minhas argumentações, ao chegar a São Paulo procurei ajuda ao diretor do IPEM (Instituto de Pesos e Medidas) que foi até a empresa que cedeu a balança para a aferição do peso dos karts.

Para azar dos dirigentes, a balança utilizada acusou excesso de peso e, no laudo emitido, constou que ela não poderia ser utilizada para pesagem oficiais, o que fez a classificação foi retificada, com a confirmação do resultado da pista.

Outra falha dos dirigentes ocorreu no final de uma corrida 12 Horas de Interlagos em que o carro que liderava a competição apresentou problema no motor na última volta.

Um dos participantes, por compaixão e amizade parou seu carro, encostou-o na traseira do líder da prova e o empurrou até a bandeirada.

Esse episódio tornou-se um problema complicado porque os dirigentes técnicos e desportivos não sabiam como resolver. A decisão foi desclassificar o carro líder, considerar vencedor o segundo classificado e deixar a decisão para o Tribunal de Justiça Desportiva.

Todos esses problemas poderiam ter sido resolvidos de forma mais séria e profissional. E o caso da Bélgica, por segurança dos pilotos, o adiamento ou simples cancelamento da prova ou a inversão da ordem das provas demonstraria a grande seriedade dos dirigentes desportivos da entidade.

Nós brasileiros, somos vítimas de críticas por decisões que desagradam os interessados. Lembro de uma situação parecida com esta da Bélgica que aconteceu no Grande Prêmio Brasil de 1974.

Emerson Fittipaldi liderava a competição e uma chuva tão forte quanto à ocorrida no último GP banhou o Autódromo de Interlagos. O presidente da Federação Paulista de Automobilismo e diretor da prova, Mário Pati, por absoluta preocupação com a segurança dos pilotos decidiu encerrar a prova. Emerson foi o vencedor e nenhuma equipe internacional criticou a sua decisão que foi muito elogiada.

Ouça esta e outras histórias no podcast Muito Além de Rodas e Motores.