Interlagos é um rascunho do que foi no passado -  Reprodução

Interlagos é um rascunho do que foi no passado – Reprodução

Samba do crioulo doido. É assim que se podem definir as reformas a ser executadas no Autódromo José Carlos Pace, em Interlagos. A FOM (Formula One Management), detentora dos direitos comerciais da F1, fez uma série de exigências para manter uma etapa da categoria no calendário até 2020. As negociações entre a prefeitura de São Paulo e Bernie Ecclestone, presidente da FOM, começaram no ano passado na gestão ex-prefeito Gilberto Kassab e continuaram na atual com o petista Fernando Haddad.

 

Só que houve uma reestruturação de custos. Originalmente, as obras estavam orçadas em RS$ 400 milhões e caiu para R$ 130 milhões. Ou seja, uma diferença financeira de algo em torno de 52%. Mágica não é. Alguma coisa ficará só no papel ou, na melhor das hipóteses, no discurso do “prefeito das faixas exclusivas de ônibus”. O contrato em vigor vence em 2014.

 

A favela no entorno de interlagos - Reuters

A favela no entorno de interlagos – Reuters

A diminuição do valor é parcialmente explicada pelo fato de uma melhora na aparência do entorno do autódromo ter sido descartada, o que é mais um deslize do atual prefeito. Existe uma favela instalada naquela região desde os anos 1970, entre as curvas 3 e 4 do antigo traçado, além de vielas as quais, no passado, levavam a buracos no muro pelos quais quem não podia pagar ingresso entrava livremente. Hoje isso não acontece mais. Os muros são verdadeiras muralhas, sem sequer frestas para espiar o que acontece no asfalto do setentão autódromo.

 

Como o automobilismo interno não gera receita aos cofres da prefeitura e a CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo) parece dar de ombros para as categorias de base, a prioridade, no momento, é agradar os times da F-1, que pedem mais espaço para trabalhar, e Bernie Ecclestone, o chefão da categoria. A recuperação do sensacional traçado antigo de 7.980 metros, de novo, foi relegada, para não dizer jogado às traças. Um erro primário de administração de várias esferas, incluindo, a SPTuris, atual gestora do autódromo.

 

Vettel dá zerinho na pista espremida e esquecida -  Getty Images

Sebastian Vettel dá zerinho na pista espremida e esquecida – Getty Images

A Prefeitura paulistana define o projeto anunciado por Kassab, ao fim de sua gestão, como uma mera ideia. Pode até ser. Mas as obras, no papel, eram bem mais amplas do que erguer boxes na reta Oposta. Elas envolviam toda uma reestruturação do autódromo e do kartódromo. Porém, deve interessar ao prefeito, como aos anteriores, contratar empresa para erguer arquibancadas a fazer do local um centro de atividades de esportes a motor aos moldes dos internacionais, que são verdadeiras obras-primas, em termos de conforto. Se bem que Interlagos recebe tão pouco público para provas locais, que um puxadinho estaria de acordo. Ou será que ninguém reparou em alguns setores de arquibancadas estavam às moscas, durante o GP do Brasil de F1? Mas sempre há justificativas, inclusive para cortes de custo.

 

“O Gilberto Kassab tinha feito aquelas declarações sobre Interlagos, mas ele não deixou nada. Quando assumimos não havia projeto básico, executivo e nem recursos para a reforma”, argumentou a vice-prefeita Nádia Campeão, após a vitória incontestável do tetracampeão Sebastian Vettel, domingo (24/10).

 

Gilberto Kassab falou mais do que fez  - Reprodução

Gilberto Kassab falou mais do que fez – Reprodução

“Ele (Kassab) falou de um projeto de R$ 400 milhões. Mas cadê os R$ 400 milhões?”, perguntou Fernando Haddad, enfaticamente, fazendo coro à sua vice Nádia Campeão. Não será pela falta dos R$ 0,20 do reajuste da tarifa de ônibus que a prefeitura abriu mão com as manifestações de junho e muito menos pela cobrança da exagerada do IPTU (Imposto Predial Territorial Urbano). Ou vai?

 

Dos recursos obtidos junto ao Ministério do Turismo para serem aplicados em obras no autódromo de Interlagos (R$ 165 milhões), R$ 35 milhões já foram consumidos, segundo a Prefeitura. Onde? Será que na contratação para instalar arquibancadas? Sim, a pergunta é mais que pertinente já que a limpeza pública continua a desejar, ou melhor, está muito pior que na gestão Kassab e a pavimentação das ruas, então, está abaixo da crítica. Não acredita? Está feito o convite para passear pela principal capital do país. A locomotiva precisa de lubrificação, talvez de retíficas completas de motor e câmbio antes que fundam.

 

Segundo a prefeitura, os R$ 130 milhões serão usados nas melhorias do paddock, que devem ficar prontas em 2015, incluem o recapeamento da pista. Pelo “novo” plano de Haddad, há a possibilidade de existirem dois paddocks em 2015: o atual e um novo, que seria construído na reta oposta. A proposta não é de todo ruim. No meu entender, os atuais boxes seriam usados para competições nacionais e o novo para a F1. Entretanto, quem comprar ingresso para acompanhar a principal categoria do automobilismo mundial, a mais rica, a que mais rende à prefeitura, perderá, no mínimo, a visão da largada. Entretanto, o autódromo é problema menor na capital.

 

Adoção deaixa exclusiva de ônibus tem sotaque de palanque eleitoral, não de solução - Reprodução

Adoção da faixa exclusiva de ônibus tem sotaque de palanque eleitoral, não de solução – Reprodução

Sinal amarelo – Em resposta aos movimentos de protesto de junho, quando a população ganhou as ruas para protestar sobre o aumento de R$ 0,20 no preço da já caríssima passagem de ônibus, a equipe do prefeito Fernando Haddad também decidiu criar faixas exclusivas para os ônibus, sobretudo no centro da cidade. O inferno para motoristas, motociclistas e ciclistas estava instalado. Os nós no transito da cidade, provocados pelas tão propaladas faixas exclusivas de ônibus são incomensuráveis. Perde-se mais tempo no trajeto de casa para o trabalho do que o período efetivamente trabalhado. No meu entender, o prefeito das faixas não sacou que São Paulo é uma megalópole, que as distâncias são, proporcionalmente, tão grandes quando o tamanho da cidade, que, efetivamente dá as costas para o transporte individual, sobretudo, os carros, agora vistos como grandes vilões do meio ambiente. Fica o convite para ler este artigo.

 

Medida paliativa, portanto, não é convincente. No dia 26 de novembro, a prefeitura municipal lançou um bilhete único mensal para seus usuários. “Nunca tivemos um momento tão propício como agora para mudar nosso modelo de cidade”, acredita Raquel Rolnik, professora de arquitetura em São Paulo, que lembra que, segundo uma pesquisa, quase 70% dos motoristas apoiam a iniciativa dessas faixas exclusivas. Há controvérsias a respeito já que não foi informado o tamanho do universo consultado. Não raro, quem mora na zona Sul e trabalha na zona Norte vai preferir usar carro ou moto ao transporte público de péssima qualidade. Dizer que o usuário do ônibus ganha de quinze a 20 minutos ante ao carro é o mesmo que tratar câncer com analgésico.

 

O transporte público do paulistano é caro e de péssima qualidade - Reprodução

O transporte público do paulistano é caro e de péssima qualidade – Reprodução

Os profissionais participantes da 10ª Bienal de Arquitetura de São Paulo, realizada em meados de outubro, condenaram o uso do carro e afirmaram que está havendo uma mudança de mentalidade. Isso porque São Paulo parece ignorar a anos o caos que antigas administrações deixaram. A capital nunca teve um plano diretor viário de qualidade, o que abre espaço agora para soluções desesperadas para um paciente em estado de coma avançado. A conta é relativamente simples.

 

Atualmente, a capital tem 11 milhões de habitantes (20 milhões se contar a área metropolitana, 30 milhões se somadas às cinco regiões-satélite) parece estar sufocada, vítima da mais completa falta de planejamento. Culpar os munícipes pelo caos instalado por invasões, pela falta de trabalho próximo à moradia, criar faixa exclusivas de ônibus e achar que tudo se resolve com o aumento faixas de rolamento, estreitando, as margens de segurança entre carros e motos, que se espremem em um balé mal ensaiado, e impostos escorchantes vá resolver alguma coisa é, de novo, soluções erráticas.

 

O Metrô seria ótimo não fosse a lentidão dos governantes - Reprodução

O Metrô seria ótimo não fosse a lentidão dos governantes – Reprodução

São Paulo tem uma frota automobilística que cresce a um ritmo de 500 veículos ao dia. Números da prefeitura apontam que pelo menos 700 mil carros circula pela cidade todos os dias, mas não é bem assim. É, na verdade, muito maior, levando-se em conta o rodízio municipal nos horários de pico, muito conveniente para gerar receita aos cofres públicos através de multas. Com 7,4 milhões de carros registrados (5,4 milhões de veículos estão em estado de uso, segundo o Detran-SP –Departamento de Trânsito de São Paulo), São Paulo deveria mais do que duplicar seus 17 mil quilômetros de ruas existentes se seus proprietários decidissem tirar seus carros da garagem ao mesmo tempo.

 

O que causa estranheza é o estímulo oferecido pelas diferentes esferas de governo para aquisição de carros novos. Eu quero deixar claro que não sou contra a prática já que ela estimula vários setores da economia. Porém, me parece absolutamente normal que quem compre faça uso do bem já que é para esse fim que se enfiou em dívidas, a maior parte das vezes de longo prazo. Condenar o carro e a moto, portanto, é uma dicotomia, parafraseando ex-presidente Lula, “nunca antes vista na história deste país” ou a instalação do apartheid urbano já que segrega e penaliza quem adquire um bem e não pode usar em detrimento de planos simplórios para uma cidade que sucumbe a aterosclerose.

Congestionamento, o inferno diário de cada munícipe - Foto:  Paulo Pinto/AE

Congestionamento, o inferno diário de cada munícipe – Foto: Paulo Pinto/AE