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O Jornal de Carro, hoje uma das publicações de maior prestígio no mercado brasileiro e referência para quem deseja saber sobre as novidades da indústria automobilística, nasceu como uma seção do Jornal da Tarde e surgiu num momento em que o Brasil enfrentava um dos capítulos mais controvertidos de sua história, pois a maioria das reportagens foi realizada em clima de perigo.

O que poucos sabem ou se lembram é que começou para cobertura do automobilismo, com reportagens sobre pilotos, e passou a acompanhar o dia a dia da indústria e do mercado.

Naquela época, como título da seção de automóvel, o nome escolhido foi Jornal de Carro. Em agosto de 1982, ganhou uma nova e semântica denominação: Jornal do Carro, editado como tablóide no Jornal da Tarde.

Ao longo dos anos foi se modernizando editorialmente e hoje, circula com caderno do O Estado de S. Paulo, é editado pelo competente Tião Oliveira, que formou uma equipe de grandes profissionais e, de forma diferente da maioria das publicações que encerraram atividades é uma fonte de empregos. Renovando a sua estratégia, além de carros, caminhões, motocicletas e bicicletas promove a mobilidade com sustentabilidade e defesa do meio ambiente.

Mas voltando aos primórdios, em plena fase do governo militar, o trabalho de pesquisa nas fábricas e fora delas, com ações arriscadas, coincidiu com protestos contra a ditadura, a criação de grupos de esquerda e de direita, a favor e contra o regime. O ato institucional número 5 (AI-5) que dava ao governo poderes inclusive de intervir nos Estados e nos Municípios, e a censura prévia, levou o jornal a substituir as matérias proibidas por receitas de bolos ou versos do poeta português Luís de Camões. Ocorriam também prisões, inclusive de companheiros de trabalho, explosões de veículos, cartas-bombas e as mortes de Marighela e Lamarca.

Em meio a esse clima, o entusiasmo pela busca da notícia nos levava a invadir fábricas e reuniões de pesquisas, subir em telhados, rasgar disfarces, descobrir carros. Tivemos muita sorte em diversas detenções, como as ocorridas nos portões da Ford e da General Motors, assim como um episódio excitante num salão de recepções do Hotel Hilton em evento com a presença de autoridades estaduais e federais, e no bairro do Lapa, nas imediações de um estúdio fotográfico.

Era simples para os seguranças das empresas e para qualquer cidadão telefonar para a polícia e informar que havia suspeitos, possíveis terroristas, como eram chamados os que se contrapunham ao regime. Logo surgiam viaturas policiais que nos cercavam com metralhadoras e outras armas. Felizmente, em nenhum desses momentos tivemos ações precipitadas da polícia e por isso estamos aqui para reviver estas histórias.

No automobilismo esportivo, o Jornal do Carro sempre deu ampla e sistemática cobertura, espaço a pilotos, mecânicos, chefes de equipes, valorizando o que eles proporcionavam ao esporte, à indústria e ao entretenimento dos que apreciavam os carros e as corridas.

No primeiro plano Emerson Fittipaldi – Foto: internet

Também deu grande ajuda aos pilotos. Emerson Fittipaldi recebeu integral apoio à sua coragem de competir na Inglaterra, publicando as suas atuações e promovendo programas dominicais na redação à espera de telefonemas que permitiram informar aos leitores os resultados conquistados, além de conversar com seus pais e amigos ávidos por saber dos resultados.

Um dia, os pilotos Luiz Pereira Bueno e Ricardo Achcar também desejaram competir na Inglaterra e me pediram ajuda. Por sugestão de Mino Carta e Murilo Felisberto, redigi uma reportagem em formato de anúncio, com o título mais ou menos com esta redação: Estes pilotos querem promover a imagem de seu produto. O publicitário Valter Uchoa gostou e me procurou no jornal, interessado em usar os pilotos para a campanha de lançamento do tecido masculino Tergal Rhodia.

Em agosto de 1974, fui convidado pela Ford para comandar a área de comunicação da empresa e o Jornal de Carro teve sua publicação interrompida algum tempo depois.

Para quem não o conheceu, o Jornal da Tarde foi criado em janeiro de 1966, circulou como vespertino (circulava após as 14 horas) até dezembro de 2012. Quebrou uma tradição e, também, um paradigma do Grupo Estado que, naquela época, tinha o jornal O Estado de S. Paulo como líder nacional e que na sua formalidade dava maior credibilidade à informação.

O Jornal da Tarde revolucionou a Imprensa brasileira, com textos informais, curtos, grandes fotos e uma nova abordagem. A criatividade excedia qualquer expectativa e, por isso, surgiram novas formas de reportagens, prestação de serviços, críticas contundentes até mesmo à polícia, especialmente contra o esquadrão da morte, que eliminava bandidos e desovava os corpos em locais ermos.

Nessa atividade o destaque foi Percival de Souza, que iniciou a profissão como jornalista de automobilismo na revista AutoEsporte, mas que se especializou em reportagens policiais no Jornal da Tarde.

Profissionais extraordinários apesar de jovens, sob o comando de Mino Carta e Murilo Felisberto, deram exemplos de que a liberdade de criação é um trunfo muito forte para as inovações.

Junto com o novo estilo, surgiram também as reportagens sempre dinâmicas. As informações sobreos vestibulares, os entretenimentos que receberam o título de Divirta-se e o diálogo com os leitores, com a seção São Paulo Pergunta.

O Jornal da Tarde também inovou com a cobertura das apresentações de jovens cantores e foi o responsável pela devoção à juventude com a divulgação dos shows de Roberto Carlos, Erasmo, Wanderléia e outros jovens, que se tornaram famosos com o título de Jovem Guarda.

Ouça esta e outras histórias no podcast Muito Além de Rodas e Motores.