Apesar de rodado, o sedan tem bom fôlego para uso urbano e nem tanto na estrada – RR Imagens

 

Ao retirar o JAC J3 Turin 2014/2015 para teste já sabia de antemão se tratar de um veículo usado e bem rodado, e que, por isso, exigiria mais cuidados na avaliação do que um zero quilômetro, já que carro usado tem desgaste. Por ser um carro já conhecido do público, e por que não dizer, de certo modo foi bem aceito pelo consumidor, graças a uma estratégia de comunicação e de marketing muito bem sucedida, baseada em oferecer mais por menos e com garantia de cinco anos nunca aplicada pela indústria automobilística instalada.

 

Parachoque dianteiro com descascamento de pintura – RR Imagens

 

Logo no primeiro contato com carro notei o pedal da embreagem um pouco duro e baixo, exigindo que o pé esquerdo fosse até o final do curso para engatar as marchas sem que as mesmas fossem trocadas sem arranhões. De cara notei falhas na pintura no para-choque dianteiro, pequenos amassados na lataria, possivelmente causados batidinhas de outros carros. Durante o teste estive em algumas oficinas de reparação de funilaria e pintura e a média de preço para correção ficou e torno de R$ 600,00. Também foi notado forte um tranco após soltar o pedal da embreagem. Imaginei e acertei se tratar de coxins de câmbio e de motor quebrados, já que ao passar pela vistoria técnica na Oficina Brasil, localizada na avenida Sargento Geraldo Santana, no subsolo do Supermercado Extra, meu diagnóstico se confirmou, segundo o inspetor Tafarel.

 

Cobertura de borracha da mola estava solta, o que pode provocar ruído – RR Imagens

 

O técnico também retirou uma cobertura de mola da roda traseira esquerda, que, segundo ele, acontece pelo emprego de material de baixa qualidade. A junta do cárter também foi trocada, mas não apresenta vazamento. A bateria e os dutos de fluidos (água, óleos de motor, freios e direção hidráulica) estão secos. Os discos e pastilhas de freio dianteiro, embora desgastadas, não apresentam anormalidade. Já a cobertura plástica do motor, essa sim, apresenta folga e provoca ruídos acima da média, e combinada com a vibração das rodas motrizes – possivelmente causada por falta de alinhamento correto – se não incomodam no ciclo urbano é um martírio auditivo no ciclo rodoviário.

 

A forração interna de carpete passa a impressão de qualidade questionável e encontrei um furo no descansa pé. Para completar, o tapete de borracha, teimosamente, subia sobre o pedal do acelerador e me passou uma imagem de improvisação. O bonito painel de plástico duro e pouco agradável ao toque antecipou e confirmou o que eu previa: ruídos. Apesar da boa leitura, o marcador de combustível não vai até uma graduação abaixo mesmo com o tanque cheio de gasolina – a versão avaliada não usa etanol. Os cintos de segurança não têm regulagem de altura.

 

Computador de bordo é incompleto. A quilometragem do início do teste – RR Imagens

Instrumento hoje barato e disponível na maioria dos veículos, inclusive populares, um computador de bordo com marcador de consumo instantâneo cairia bem. O do J3 Turin apresenta aviso de porta aberta, cinto de segurança desafivelado e hodômetros parcial e total em fundo azul Outro ponto negativo: as forrações de plástico das portas, mesclando preto piano com cinza escuro apresentam ruídos e sujeira. Os pinos de travamento das portas ficam aparentes, denotando certa falta de cuidado.

 

Os bancos de couro também demonstram falta de cuidado. Além de opacos, o do motorista tem trincas e descascamento no encosto e, neste caso, a troca da cobertura é bem salgada, algo em torno de R$ 800,00, de acordo com as oficinas consultadas. Fora isso, encontrar a melhor posição para dirigir é fácil. O volante de três raios com comandos de controle de rádio, também forrado em couro, tem boa empunhadura, mas peca pela restrita regulagem de altura e pela péssima posição do acionamento da buzina. Para buzinar o motorista é obrigado a soltar uma das mãos. No console central conta com porta copo e isqueiro, que funciona também para fonte de alimentação de bateria de celular, notebook, entre outros, peca pela falta de um cinzeiro. Quem for fumante, ou terá de abrir a janela ou esperar que o condutor pare o carro. Os não-fumantes não sentirão falta.

 

Couro opaco e rasgo – RR

O ambiente interno é agradável e a visibilidade boa, mas o carro testado apresenta uma pequena trinca no para-brisa, o acionador do vidro elétrico do motorista, único com comando de um toque só funciona para descer e para subir é preciso segurar a tecla. O erro de velocímetro é de 4%. Falha grave é a do comando da chave, do tipo canivete. Ao deixar o carro e acionar o travamento os vidros não sobem automaticamente, um convite para a ação do alheio.

 

Os coxins traseiro do câmbio e do motor quebrados e falha no atuador de embreagem – RR

 

Rodando – Em ciclo urbano, o J3 Turin vai bem. O conjunto motor 1,4 litros com comando VVT e câmbio manual de cinco velocidades não decepciona. O consumo médio de 10,2 km/l com ar condicionado ligado e de 11,3 km/l sem ar e com dois passageiros é bom, levando-se em consideração a idade e quilometragem que tem o chinesinho. Embora com engates razoavelmente precisos, o curso da alavanca de câmbio me pareceu longo. Se mais curto ofereceria um melhor aproveitamento de torque e potência.

 

Como boa parte do teste foi feito pelas mal cuidadas e esburacadas ruas da capital paulistana – um verdadeiro campo de provas para suspensões, freios e pneus – foi notado ruídos tanto na dianteira quanto na traseira. Segundo os técnicos da Oficina Brasil, isso acontece por causa de ressecamento ou falta de borracha da cabeça do amortecedor junto da carroceira. Como se tratava apenas de uma inspeção e não de correção, fica a dica para a importadora.

 

Lentes dos faróis apresentam partes opacas e ressecamento – RR Imagens

 

Inspecionadas, bieletas, bandejas e buchas de suspensão parecem ser as originais e não apresentam desgaste que comprometa a dirigibilidade. Mas, segundo o técnico Tafarel, “se precisarem de reposição o proprietário deverá ter paciência e dinheiro no bolso, pois além de caras não são fáceis de serem encontradas no mercado de reposição e o carro não aceita ‘gambiarra’ (troca de um componente original por outro disponível no mercado)”.

 

Pinos da bateria estavam limpos não comprometendo, assim, seu uso – RR Imagens

 

Firme nas curvas e frenagens, o J3 Turin testado é bem agradável de ser conduzido. O volante de direção oferece boa pegada, dá uma volta e meia para a esquerda e pouco mais que isso para a direita, o que facilita nas manobras de estacionamento. Porém, talvez por falta de alinhamento, notei falta de progressão de firmeza em velocidade acima de 70 km/h, lembrando que nas marginais dos rios Pinheiros e Tietê o limite de velocidade permitida é de 90 km/h.

 

No teste rodoviário, entre São Paulo e Tatuí, o carro apresentou forte vibração e excesso de ruído – RR Imagens

 

Se o J3 Turin agrada no ciclo urbano, o mesmo não se pode dizer do uso em ciclo rodoviário. Rodei com ele pela Rodovia Castelo Branco até Tatuí, município distante 152 km da capital, sempre obedecendo aos limites de velocidade de 100 km/h e 120 km/h. O conjunto não chega a decepcionar, mas todos os ruídos citados anteriormente invadem a cabine de modo agressivo. É como ouvir uma orquestra sinfônica que se transforma numa banda de metal ou punk rock.

 

Todas as vibrações se intensificaram, chegando ao volante de direção e os ruídos exigem que ou os ocupantes aumentem o tom de voz ou permaneçam mudos. É nessa hora que o barato sai caro, já que o passeio de pouco menos de duas horas vira um martírio auditivo. As causas já citadas anteriormente se avolumam e são causadas pelo pouco esmero de isolamento acústico. O motor parece pedir uma sexta marcha e trabalha sempre entre 3,2 mil e 3,5 mil rpm. O tempo de retomada de velocidade em quinta marcha me pareceu longo. A iluminação do J3 Turin é boa e conta, ainda, com faróis de milha, mas as lentes apresentam pequenas trincas descascamento provocadas pela ação do tempo.

 

Tafarel não reprovou o JAC 3 Turin, mas citou dificuldade de peças de reposição – RR Imagens

 

Revenda – De acordo com a tabela Molicar, o preço de revenda do J3 Turin avaliado é de R$ 25.700,00, mas a realidade é outra. Em consulta anônima, os revendedores de automóveis usados da zona Sul, avaliaram estaticamente o carro e ofereceram pelo carro de R$ 18.500,00 a R$ 19.200,00 na troca por outro de maior valor. A perda média de 36% foi creditada pelos negociadores pela baixa procura por modelos chineses.

 

Segundo eles, o custo de carregamento de estoque (tempo que o carro fica na revenda) de carros usados importados da China, e não é unicamente relacionado aos JAC – só compensa se eles entrarem na troca por outro de valor bem mais alto. Todos foram unanimes em rejeitar vender em consignação. A alegação é que o momento econômico do país não dos melhores e que procura por carros usados nacionais ser maior que a de usados importados, que apesar de terem preços convidativos custam bem mais caro na hora de fazer manutenção.

 

Fim do teste, tanque cheio e erro do marcador de combustível- RR Imagens

Em uma delas, localizada na zona Norte da capital, que pediu para não ser identificada, o carro foi sumariamente rejeitado. A razão é que dois deles estiveram à venda em consignação por dois meses sem aparecer um interessado, e, segundo o vendedor, ambos estavam em ótimo estado de conservação e tinham preços convidativos, bem abaixo das principais tabelas, no caso Fipe, Jornal do Carro e Molicar.

 

A concorrência entre carros chineses com os nacionais é acirrada. Segundo os revendedores consultados, o calcanhar de Aquiles dos modelos importados são preços de manutenção mais caros que os dos tupiniquins, em geral de baixa cilindrada – mas de maior rotatividade – e das peças, que, por vezes, demoram até serem encontradas, os valores são altos e há demora para entrega.

 

Teste

Aceleração

0 – 100 km/h: 12,6 s

0 – 400 m: 19,9 s

0 – 1.000 m: 34,1 s

Velocidade a 1.000 m: 157 km/h

Velocidade. real a 100 km/h: 95

Retomada

40 – 80 km/h (3ª marcha): 8,1 s

60 – 100 km/h (4ª marcha): 13,2 s

80 – 120 km/h (5ª marcha): 18,6 s

Frenagem

100 – 0 km/h: 45,1 m

80 – 0 km/h: 30,1 m

60 – 0 km/h: 17,1 m

Consumo:

Urbano: 10,7 km/l

Rodoviário: 13,2 km/l

Média: 11,7 km/l

Autonomia em ciclo urbano: 514 km

Autonomia em ciclo rodoviário: 634 km

Ficha técnica JAC 3 Turin

(dados da montadora)

Motor:

Dianteiro, transversal, 4 cilindros em linha, 16V, comando simples

Cilindrada:

1.332 cm³

Potência:

108 cv a 6.000 rpm

Torque:

14,0 kgfm a 4.500 rpm

Câmbio:

Manual de 5 marchas, tração dianteira

Direção:

Hidráulica

Suspensão:

Dianteira: independente McPherson

Traseira: independente Dual Link

Freios

Dianteira: discos ventilados

Traseira: tambor

Pneus

Continental 185/60 R15

Dimensões:

Comprimento: 4,15 m

Largura: 1,65 m

Altura: 1,46 m

Entre-eixos: 2,40 m

Tanque:

48 litros

Porta-malas:

490 litros (dado da JAC Motors)

419 litros (aferição RR)

Peso:

1.100 kg

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...