A F1 Negócios ultrapassou a F1 Esporte e agora paga o preço do desinteresse do telespectador - Foto: Getty Images

A F1 Negócios ultrapassou a F1 Esporte e agora paga o preço do desinteresse do telespectador – Foto: Getty Images

O desinteresse do telespectador e, consequentemente, perda de audiência nas televisões retransmissoras da F1 não é um fenômeno imediato, é mediato. A mais categoria do automobilismo mundial é hoje um rascunho, do ponto de vista esportivo, do que foi no passado. Os mandatários da categoria acreditaram que a divisão se encerrava nela mesma e que os negócios deveriam estar à frente do esporte. Além disso, o espectador precisa de ídolos e a F1 se distanciou de tal forma, que um piloto que começa a temporada pode muito sair de cena já que o grid é formado por pilotos pagantes, e muitos deles com experiência questionável. Sem vitórias, sem estrelas nacionais e com carência até mesmo de pilotos que possam ser chamados de “promessas”, a Fórmula 1 afunda no ibope na TV aberta. Dados obtidos por este site apontam que nos últimos dez anos a Globo perdeu mais da metade da audiência nesse esporte: 55%, para ser bem exato. Em 2002, a média de ibope das transmissões da F1 foi de 19,4 pontos na Grande São Paulo.

 

A história do “pagou andou” agora é cobrado pela mídia e anunciantes. Prova disso é que a TV Globo, detentora dos direitos de transmissão das corridas de F1 no Brasil está em negociações avançadas de transferência de exibição com o canal a cabo Fox Sports já em 2014. Os indícios de que algumas coisas não estavam bem não é novidade. A Vênus Platinada, segundo fontes, há tempos vem encontrando dificuldades para negociar o pacote F1 junto às agências de propaganda e publicidade, que não colocam dinheiro bom em produto ruim (leia-se: de baixa audiência). Para não deixar claro que tirou o time de campo, na negociação com a Fox, a Globo ficaria com um resumo de cada corrida de 15 minutos. Para quem não conhece os bastidores de televisão, cada emissora tem direito a um resumo de 3 minutos de resumo sobre qualquer assunto gerado por uma coirmã desde dê o crédito da geradora.

 Crédito: Reprodução

O curioso é que durante a queda de ibope da F1, a participação de cada emissora no conjunto de aparelhos ligados continuou o mesmo nas outras TVs. Isso indica que o público que acompanhava a F1 não trocou as corridas por outras TVs ou programas. Ele simplesmente deixou de ligar a TV. Uma mensagem mais ou menos do tipo: “Vou assistir a isso pra quê se já sei o resultado?”. O famoso, jogo armado. Em 2008, o ibope ainda atingiu a razoável média de 17,1 pontos, mas havia um motivo claro. Aquele foi o último ano em que Felipe Massa, de fato, teve chances de chegar ao título (veja o vídeo – Crédito: Zezo Azambuja). Ficou no “quase”. Massa esteve campeão por 30s. Lewis Hamilton ficou com o caneco. Desde então a torcida convive apenas com desapontamentos, a cada ano e a cada nova corrida. Os números da queda da F1 na Grande São Paulo são muito parecidos com os registrados no restante do país, no chamado PNT (Painel Nacional de Televisão). Em 2012, a média da F1 no PNT está em 8,5 pontos.

 

Vale frisar, que a FoxSports (ex-Speed Chanel) é dona dos direitos da F-1 em toda a América, com exceção do Brasil. Os treinos oficiais da F-1 e as corridas seguirão com transmissão nos canais SporTV (sextas-feiras e último treino livre de sábado), enquanto a Globo fica com o treino de classificação para o grid de largada. Ou seja, a nave mãe fica com o coração do filé no canal aberto e as outras com o músculo do boi magro. É aí que entra o poder de fogo de quem detém os direitos da F1 junto a FOM (Formula One Management). Em dez anos, a F-1 perdeu mais da metade de seu público na rede aberta. No entanto, a F-1 2013 tem seis grandes patrocinadores, que pagaram cerca de R$ 62 milhões (preço de tabela) por cada cota de patrocínio. Entendeu agora o que eu disse sobre investir dinheiro com retorno de risco?

 

Como o mercado publicitário, particularmente os diretores de mídia, usam como baliza o fator amplitude (entenda-se amplitude como investimento versus retorno unitário sobre o número de telespectadores), é bem possível que haja um desinteresse na F1, que no próximo ano passará a ser regida por um novo regulamento técnico. Além disso, os subsequentes “quase” dos pilotos brasileiros Rubens Barrichello – hoje comentarista da Globo –, Felipe Massa e Bruno Senna, relegados a condição de segundos pilotos, gerou uma baita complicação nas negociações entre a emissora e os anunciantes. Diferentemente da época de Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna, cuja morte rendeu picos históricos de audiência à Globo, hoje ouvir o Tema da Vitória está condicionado a um problema de pista dos primeiros pilotos das equipes. Ou seja, quase impossível.

 

 

Sebastian Vettel se encarregou de manter o hino alemão no topo - Foto: Getty Images

Sebastian Vettel se encarregou de manter o hino alemão no topo – Foto: Getty Images

Sabendo disso, e com as tabelas de audiência em tempo real nas mãos, a Globo perdeu, também, deve ter perdido o interesse na categoria. Na prática, é bem mais fácil vender pacotes de chatíssimos e previsíveis realities shows a convencer um anunciante que a F1 ainda é um esporte (sic!) viável. Mais que isso, a emissora agora mudou sua grade de programação, dando mais importância ao futebol, inclusive da Série B, pela garantia de audiência. Diante disso, cortar ou jogar para a madrugada a transmissão das provas, em detrimento de finais do futebol ou de outros eventos importantes, como a miguelagem de Anderson Silva na manutenção do título de campeão do UFC ou a visita do papa Francisco, é fácil. Os fãs da F1 que se danem. Algo negócios, negócios esporte à parte.

 

Efeito China – Bernie Ecclestone, o patrão da Fórmula 1 e detentor dos direitos comerciais da modalidade, revelou que as audiências televisivas cresceram “na maioria dos mercados” durante o ano de 2012 quando comparadas com 2011, mas esse crescimento não foi suficiente para compensar a queda do mercado chinês. “Um pequeno número de territórios não correspondeu às expectativas em termos de alcance, com o mercado chinês sofrendo uma queda que não pôde ser absorvida por um número significativo de aumentos em outros lugares”, afirmou Ecclestone no prefácio do relatório que analisa o desempenho das audiências televisivas globais da modalidade.

 

O público chinês é um dos mais jovens, com mais de 10% de todos os espectadores com idade inferior a 16 anos e um quarto com menos de 25 anos. Para a China foi transmitida um total de 229 horas em 2012, em comparação com as 322 em 2011, o que levou a uma queda de audiência de 74,5 milhões para 48,89 milhões de telespectadores.

 

Ainda, segundo o relatório, em sentido contrário caminhou o Brasil, que passou a ser o maior mercado, tanto em número de espectadores como em audiência média: 85,55 milhões de pessoas estiveram, em média, sintonizadas para assistir às 20 corridas, o que representa um aumento de quase 10% em relação a 2011. O relatório de 2012 não divulgou número exato de público que acompanha a F1 a nível mundial e que, em 2011, foi estimado em 515 milhões, embora Ecclestone tenha afirmado que se mantém acima dos 500 milhões. A F1 é transmitida para 185 territórios, com 110 parceiros de transmissão. Esses números, de certo, deverão ser revistos parar a atual temporada. Em outras palavras, a “coisa” fedeu. E tenho dito!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...