Para Cláudia Ito, o autódromo não pode perder identidade (Reprodução)

Para Cláudia Ito, o autódromo não pode perder identidade (Reprodução)

A reforma do autódromo de Interlagos, em São Paulo, começará a passar por reformas no meio deste ano para se adequar às exigências da Fórmula 1, mas não como havia sido acertada por contrato com a FOM (Formula One Management), empresa responsável pelos direitos da categoria máxima do automobilismo. A proposta era de construção de novos boxes e paddock na reta Oposta, onde seria, também, o ponto de largada. A intervenção, porém, foi descartada pela administração Fernando Haddad (PT-SP), prefeito municipal de São Paulo. Ficou o dito pelo não dito.

 

Segundo a organização do GP do Brasil, o paddock, os boxes e o ponto de largada serão mantidos na localização atual e não vão mais para a reta Oposta, como previsto anteriormente, e que foi alvo de reclamação recorrente da F1 pelo espaço reduzido. O custo total da reforma, estimado em R$ 160 milhões, valor está garantido pelo Ministério do Turismo, dentro de um pacote que envolve um total de R$ 260 milhões, sendo que R$ 60 milhões serão investidos para uma reforma no complexo do Anhembi e R$ 40 milhões para a construção da Fábrica do Samba, na região da Barra Funda, próxima ao Sambódromo.

 

Visão aérea mostra o descaso com o entorno do autódromo (Reprodução/GersonLDN)

Visão aérea mostra o descaso com o entorno do autódromo (Reprodução/GersonLDN)

O ministério destinou outros R$ 19,5 milhões para a primeira etapa da implantação de infraestrutura de acessibilidade em rotas turísticas, que incluem o entorno do Parque do Ibirapuera e da Rua da Consolação. O projeto faz parte da programação do governo para a Copa do Mundo, que tem início em junho. Até aí, tudo bem. Toda modernização para receber turistas do mundo todo é bem vinda, mas seria de bom tom se viesse acompanhada de melhorias nas áreas de iluminação, segurança, limpeza, recapeamento das principais vias, que estão mais para pista off-road e de testes de suspensão e de resistência estrutural de veículos.

 

Aliás, o entorno do autódromo está em estado de precariedade ímpar. Fora a favela que “enfeita” as curvas 3, 4 e Junção, o índice de assaltos a residências na região é alarmante sem que ninguém, seja da esfera municipal ou estadual, tome uma atitude. Locais antes tranquilos, como o Jardim Consórcio, particularmente na rua David Eid, onde quase todas as casas foram assaltadas rua Constança, e avenida Interlagos são alvos preferidos da bandidagem, segundo denúncias dos moradores ao jornal SPTV, da Rede Globo. Preservar a integridade física e patrimonial dos moradores é de competência dos governantes. Criar faixas exclusivas de ônibus, marca do prefeito Haddad, por favor, não resolve, complica.

 

Novo traçado decretou a morte da parte mais interessante da pista antiga, como as curvas 1, 2, 3, reta Oposta, curvas do Sargento, Laranjinha (Reprodução)

Reforma matou as curvas 1, 2, 3, reta Oposta, curvas do Sargento e Laranjinha (Reprodução)

Maquiagem – Em Interlagos, as obras devem começar entre os meses de junho e julho e vai fechar o autódromo durante a reforma. A pista de 4.309 metros será totalmente recapeada pela primeira vez desde 2007. O prazo de troca do asfalto geralmente é de cinco em cinco anos e não ocorreram. Com efeito, as competições automobilísticas perderam espaço para eventos promocionais, que são mais lucrativos. A previsão de término da obra de recapeamento está prevista para meses antes da realização do GP do Brasil de Fórmula 1 deste ano, marcado para o dia 9 de novembro.

 

Para 2015 está aguardada uma reforma ainda maior. As áreas de boxes e paddock serão ampliadas para atender aos pedidos das equipes, que querem mais espaço para acomodar pessoal, áreas de escritório, cozinha e recepção de convidados durante o fim de semana da corrida, os famosos e cobiçados hospitality centers (centros de hospitalidade, em português) os quais, hoje, são alojados em cima dos boxes.

 

Falsa ostentação: paddock de Interlagos é um puxadinho. E daí? (Reprodução: Robert Ghement/EFE)

Falsa ostentação: paddock de Interlagos é um puxadinho. E daí? (Reprodução: Robert Ghement/EFE)

“A infraestrutura no local já existe, como as cabines de rádio, por exemplo. Continuar na mesma reta dos boxes atende às exigências e representa custo menor de obra”, disse a diretora-executiva do GP do Brasil, Cláudia Ito. A revitalização deve contemplar a construção de até três novos boxes, além da montagem de uma nova estrutura anexa. “Vamos preservar a característica que Interlagos tem da movimentação do paddock, que permite a proximidade entre pilotos e imprensa”, explicou. A transferência da reta principal e das garagens exigiria o aumento da largura da pista dos atuais 8 metros para 15 metros. Além disso, a “nova” primeira curva, a Descida do Lago, no final da reta Oposta – que na reforma anterior secou um dos lagos – necessitaria de mais área de escape, mais tempo de adequação e possivelmente mais recursos financeiros. Por exigência da FIA (Federação Internacional de Automobilismo), a primeira curva após a largada deve ter, necessariamente, mais de 250 metros. Ou seja, se o contrato fosse cumprido ao pé da letra, o mutilado Autódromo José Carlos Pace (Interlagos, para os mais íntimos) viraria um frankstein. Mas as péssimas instalações para o público, ora, continuariam as mesmas: fétidos banheiros químicos, arquibancadas temporárias de armação e o preço do ingresso…

 

Curva da Ferradura, um espetáculo que ficou na lembrança (Reprodução)

Curva da Ferradura, um espetáculo que ficou na lembrança (Reprodução)

Já que preservar a identidade do autódromo voltou à pauta, por que, então, não recuperar o circuito antigo, ou pelo menos fazer uma plástica corretiva ao autódromo decano? Dizer que não tem verba, desculpa, não dá para engolir. Afirmar que o investimento não redundaria em bônus político, idem. Esperar que alguma empresa privada desencaixe dinheiro, então, pode esquecer. O setor privado, aparentemente, não tem o menor interesse no automobilismo de competição. Isso é fato.

 

Atual Descida do lago já foi subida da reta Oposta (Reprodução)

Atual Descida do lago já foi subida da reta Oposta (Reprodução)

Conveniência – De acordo com a organização do GP do Brasil, uma pesquisa da FOM foi decisiva para a manutenção da posição atual da reta dos boxes. A companhia conversou com equipes e emissoras de televisão, que consideraram ser negativa a troca do local de largada, porque poderia fazer a pista perder identidade e prejudicar a qualidade da corrida. Sério, eu não entendi. O acordo de reforma foi firmado entre as duas partes, de modo a manter o GP do Brasil de F1 em Interlagos por mais 20 anos, agora a conversa é outra?

 

Contrato não cumprido: Ecclestone vai chiar (Reproduçao: Nelson Antoine/AP)

Ecclestone vai chiar (Nelson Antoine/AP)

Durante a reforma do paddock, a pista continuará a receber eventos de outras categorias do automobilismo nacional, que serão abrigadas em outras áreas de Interlagos, nos arredores dos boxes atuais. Alguém tem dúvida que a área escolhida será na saída das injustamente aposentadas curvas do Sol ou do Sargento?

 

A revitalização será realizada pela SPObras, empresa da prefeitura vinculada à Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras, que deve divulgar em breve o cronograma detalhado das etapas. O jeito é torcer para que a velocidade das obras no autódromo seja tão rápida quanto à implantação das faixas exclusivas de ônibus e menos traumáticas para a população do bairro.